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sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

AS OVELHAS DE CRISTO ESTÃO SEM PASTORES

A IGREJA CLAMA POR MELHORES PASTORES


AUTOR: CRISTIANO SANTANA

O PROBLEMA

É possível que uma congregação inteira fique insatisfeita com o seu pastor, a ponto de desejar, ardentemente, a sua substituição? Essa pergunta, à primeira vista, parece ridícula e sem fundamento, isto porque, a priori, o pastor foi ungido pelo Senhor Jesus Cristo para o santo ministério e, consecutivamente, foi considerado digno da confiança do pastor-presidente que o designou para essa função. Dessa forma, a própria insatisfação, em si, seria considerada uma atitude reprovável; mais do que isso: tal atitude poderia ser a manifestação de crentes que sucumbiram às influências de Satanás, o grande semeador de contendas.

Há quem diga que, nos primódios do protestantismo no Brasil, a figura do pastor gozava de uma maior autoridade sobre o rebanho, que aceitava, sem contestação, a sua decisão. Os congregados orbitavam em torno do pastor como planetas regidos por um lei inquebrantável. Protesta-se que hoje a situação não é mais a mesma. Frequentemente o pastor tem de lidar com membros contenciosos, e até obreiros, que lhe resistem abertamente, desprezando completamente a sua superioridade eclesiástica.

Ainda que não abertamente, percebe-se que atualmente há um conflito em andamento em várias igrejas. De um lado os membros reivindicam o direito de participar das decisões da igreja, o direito de serem ouvidos. Há um forte clamor por uma igreja mais democrática, por uma administração mais participativa. Há cristãos que não querem mais se submeter passivamente a tudo que o pastor determina. Eles exigem sempre uma razão. Do outro lado, há os pastores, que não admitem perder terreno para os membros. Não abrem mão de terem sempre a palavra final e não aceitam serem contrariados. Sentem-se confortáveis em serem líderes autocráticos. Acham que o pastor que tenta agradar a maioria destrói a si mesmo; acham que ceder às crescentes exigências dos membros mina completamente a autoridade do pastor. Há muitas igrejas vivendo sob essa tensão que, às vezes, é quase insuportável. 

É uma guerra fria, na qual, um tenta prevalecer sobre o outro. Quando insatifeitos, os membros torcem pela destituição do pastor. Esse último, por sua vez, sonha com o dia em que os contenciosos mudarão para outra congregação, deixando-o, assim, em paz.

E agora? Quem está com a razão?

Talvez a melhor forma de analisar esse conflito seja atingir as causas, não secundárias, mas primárias do seu surgimento, as quais, uma vez conhecidas, possibilitarão o apontamento de soluções mais eficazes. Realmente, é verdade que, quando se conhece a causa de uma doença, torna-se mais fácil achar a sua cura.

São dois os fatores preponderantes que colaboraram para o surgimento do abismo relacional entre os pastores e membros:

AS CAUSAS DO PROBLEMA

1) O advento da igreja pós-moderna.

2) O crescimento das igrejas

Quanto ao primeiro fator, deve ser dito, primeiramente, que não há dúvida quanto à honradez, à sinceridade e ao caráter ilibado de grande parte dos pastores que são designados como dirigentes de congregação por seus pastores-presidentes. São servos de Deus que têm dedicado suas vidas em prol do Evangelho. Quanto aos mais idosos, a Igreja do Senhor Jesus Cristo é mais do que grata pelo trabalho pioneiro, prestado por eles, há décadas atrás.

Entretanto, a sociedade pós-moderna globalizada, multicultural, secularizada, cética e pluralista tem exigido do pastor um aperfeiçoamento mais abrangente, em diversas áreas (espiritual, cultural, intelectual, psicológica, etc.)

O livro “O Pastor Pentecostal – Um mandato para o Séc. 21” (Edições CPAD) fala sobre a necessidade de lidar com mudanças: “Já não vivemos nos dias de antigamente, quando o pai trabalhava, a mãe ficava em casa, as crianças faziam suas lições de casa depois da escola e todos iam juntos à igreja no domingo. A era da informação mudou a maneira como as pessoas trabalham e vivem. O mundo de hoje não é como o de nossos pais. A época em que vivemos não é o que aprendemos em institutos bíblicos ou nos seminários.”

Continua o livro: “As mudanças têm afetado drasticamente a igreja. Em muitos casos achamos difícil enfrentar o fato de que as circunstâncias mudam. Muitas vezes, em nosso zelo de nos manter fiéis a uma mensagem imutável, não percebemos que estamos nos dirigindo a um mundo mutável. Pastores e igrejas de sucesso percebem que vivem em um mundo sujeito a mudanças e adaptam a mensagem imutável a esse mundo mutável. A influência da televisão levou ao mundo para as zonas rurais. Em igrejas pequenas, mais se exige de pastores e líderes de igrejas para tentarem igualar-se aos grandes ministérios paraeclesiásticos vistos na televisão nacional. Crianças que passam a semana na escola aprendendo em computadores e divertindo-se em jogos virtuais de computador já não ficam fascinadas com o flanelógrafo na aula da Escola Dominical. Ainda que o poder de nossa mensagem seja imutável, o meio de apresentar a mensagem tem de mudar. O desafio enfrentado pelos pastores da atualidade é como lidar pessoalmente com o andamento e o impacto das mudanças, como ajudar as pessoas a lidar com essas mudanças e como controlar as mudanças em nossas igrejas”

Há pastores que ainda estão presos ao passado. Insistem em aplicar filosofias administrativas, costumes e valores que já são, por demais obsoletos e que não têm mais nenhuma utilidade para a igreja. Não se trata aqui de dizer que os cristãos têm de arrancar os "marcos antigos" e substituí-los por outros, ou trocá-los de lugar. Certamente, existem  valores que são absolutos, imutáveis e eternos, inerentes à essência do Evangelho, mas existem outros que são relativos, fortemente influenciados pela cultura de uma época, como é o caso da antiga proibição de assistir televisão. Outros princípios como a necessidade de se evitar vestes indecorosas dentro da casa de Deus, certamente permanecerão. 

Também há pastores, que não obstante serem da uma nova safra, também não estão sintonizados com a nova realidade. Eles têm um formação teológica, cultural e eclesiástica muito limitada. Muitos deles são lançados de pára-quedas nas congregações por seus pastores-presidentes, sem nenhum preparo prévio. A não ser por uma intervenção miraculosa da parte de Deus, uma igreja que receba tal obreiro está destinada ao sofrimento, dada a complexidade que envolve dirigir uma congregação.

Quanto ao segundo fator - o crescimento da igreja - os chamados "campos" ministeriais eram pequenos até algum tempo atrás. Logo começaram a crescer, multiplicando, quase que exponencialmente, as suas congregações. Hoje são ministérios imensos, alguns contando com centenas de congregações. A igreja, enfim se institucionalizou, assumindo aspecto praticamente corporativo. O resultado colateral desse espantoso crescimento foi a perda do controle sobre as ações do dirigente de congregação. O pastor-presidente passou a concentrar sua atenção em problemas cada vez mais complexos e gerais, envolvendo-se em decisões do chamado "alto escalão"; decisões predominantemente institucionais e de natureza financeira, arregimentando, também, para essa finalidade um grupo considerável de pastores que passaram a dedicar seus esforços à manutenção da máquina administrativa.

Como resultado, os crentes foram deixados à mercê do arbítrio do dirigente da congregação que, por não haver um acompanhamento mais efetivo de sua liderança, vê-se livre para imprimir seus próprios valores, às vezes contrários ao da igreja matriz. O resultado, geralmente, é o jugo, o sofrimento. Comumente, a tensão surge quando os membros percebem que o seu dirigente toma atitudes que não coadunam com a filosofia administrativa do pastor-presidente. Há situações como essas que perduram por longos anos, sem o conhecimento do pastor-presidente que não tem tempo para cuidar de detalhes. Os crentes são maltrados e desrespeitados. Quando chega a denúncia ao pastor-presidente, ele não dá crédito. Acha que as reclamações são apenas murmurações sem fundamento que não comprometem a reputação do seu subordinado. Não há dúvida de que o acompanhamento das atividades da congregação, pela diretoria da matriz, certamente iria coibir muitas práticas abusivas, perpetradas por alguns dirigentes. Mas ocorre o contrário: há líderes que praticamente não se importam com o que se passa na congregação.

PROPOSTAS PARA A SOLUÇÃO DO PROBLEMA

Foram encontradas, portanto, duas causas primárias que originam essa tensão atual entre pastores e membros:

-Incompatibilidade entre os valores do pastor e as necessidades da nova igreja.

-Ausência de um sistema interno de controle, que permita uma avaliação precisa da eficiência pastoral e administrativa do dirigente da congregação. 

Duas propostas poderiam ser apresentadas, com o fim de solucionar o problema ora apresentado:

1) Reunião anual em cada congregação, entre membros e obreiros, com a participação de um representante da diretoria da igreja-matriz, como observador.    

2) Cursos de reciclagem para os dirigentes de congregação, extensivo aos demais obreiros, nos quais pudessem ser ministradas palestras com temas diretamente vinculados ao ministério pastoral, tais como: ética cristã, relações interpessoais, liturgia, aconselhamento pastoral, finanças, princípios básicos do Direito Civil relativo a igrejas, etc. 

Dando desenvolvimento à primeira idéia, considera-se de vital importância a visita periódica de membros da diretoria da igreja-matriz às congregações, para participarem de reuniões, com o exclusivo objetivo de tomarem ciência de seus projetos, seus problemas, enfim, suas realidades. Justificativas para tal medida:

-Os membros se sentiriam mais valorizados, pois passariam a ter uma maior percepção do interesse da administração central pelos assuntos da congregação. Há congregações que ficam sem visita de pastores da matriz por anos a fio. Tal situação configura-se um verdadeiro abandono.

-A diretoria passaria a ter o acesso direto a informações que, por sua própria natureza, têm mais dificuldades de serem conhecidas pela simples supervisão à distância. Como protestantes, repudiamos totalmente o dogma da infalibilidade papal. A justificativa para tal posição é o fato de reconhecermos que até o mais santo dos homens é falho. Inclui-se no rol das possíveis falhas a tentativa de um subalterno ocultar fatos àquele a quem deve prestar contas. Infelizmente, nesses casos, a informação só chega ao órgão superior através de denúncias anônimas daqueles que se sentem injustiçados. Segue-se que, basear-se em um relatório periódico do dirigente, por mais confiável que ele seja, constitui apenas uma das vias de conhecimento da realidade da congregação. Basear-se apenas na fria análise estatística da entrada de dízimos é tratar de forma superficial o problema. É mister valher-se de outros métodos de avaliação do desempenho daquele que está no comando das ovelhas do Senhor. Na maioria das principais instituições da sociedade moderna há algum tipo de supervisão ou controle. No âmbito do judiciário, existe o sistema de correição que consiste na visita periódica de juízes, designados pela Corregedoria, a cada uma das comarcas do Estado, com o objetivo de tomarem ciência de todos os problemas internos às varas. O princípio da publicidade impede que secretários municipais e estaduais e ministros de governo  realizem algum ato administrativo sem o conhecimento de outros órgãos. Ouv-se dizer que o dono das Casas Bahia visita pessoalmente suas lojas, até anonimamente, para se certificar do bom andamento de seus negócios. Alguém poderia dizer que a Igreja não é o Judiciário, não é a Administração Pública e não é as Casas Bahia. Concordo. Não é mesmo. A Igreja é muito mais importante e merece uma supervisão mais cuidadosa e objetiva que não passe apenas pela via unilateral da auto-avaliação subjetiva do dirigente da congregação.

-Um contato mais direto com os problemas pelos quais passa o dirigente permitiria à Diretoria uma melhor avaliação da situação da congregação, possibilitando, conseqüentemente, soluções mais eficazes e um suporte mais sólido ao dirigente. A princípio a ida de membros da Diretoria à congregação parece ser uma ação incoerente de fiscalização das atividades do dirigente, pois, se o pastor presidente o colocou ali, é porque confia nele plenamente. Não deve ser entendido assim. Essa medida, na verdade, é uma forma maravilhosa de se oferecer apoio ao dirigente, que, em algumas situações, pode sentir-se isolado numa ilha de dificuldades, sem ter quem o ajude.

Quanto à segunda idéia, é inegável que a promoção de palestras, voltadas especificamente para os dirigentes das congregações e seus auxiliares, tendo em vista o aperfeiçoamento do ministério, em face dos desafios do Século 21, iria redundar em frutos abundantes: crescimento da membresia, satisfação dos membros, prosperidade financeira e outras dádivas que Deus, com certeza, quer conceder à sua igreja. Como já foi dito, são muitos os assuntos que podem ser ministrados: ética cristã, relações interpessoais, liturgia, aconselhamento pastoral, finanças, princípios básicos do Direito Civil relacionado a igrejas, etc.  Especialistas poderiam ser convidados para instruir os dirigentes através de palestras com programação predefinida. 

As maiores empresas do mundo: Microsoft, Xerox, Petrobrás, etc., promovem, regularmente, cursos de reciclagem para seus executivos. Por que os obreiros não precisam? Os pastores atuais também precisam, muito, de cursos de reciclagem que lhes permitam uma auto-avaliação e que lhe mostre novos horizontes e novos conceitos. Com certeza, o obreiro do Senhor precisa de um constante aperfeiçoamento, para o seu bem, e, principalmente, para o bem do corpo de Cristo. Sempre há espaço para se aprender alguma coisa nova e útil.

O perfil do crente atual tem exigido pastores bem preparados. As pessoas atualmente são mais instruídas, bem mais esclarecidas, tanto cultural quanto teologicamente. As necessidades também mudaram sensivelmente. O pastor que parou no tempo não têm mais condições de atender a esse tipo de crente. Ser espiritual apenas, não basta. Pedro era tão espiritual quanto Paulo, mas Paulo destacou-se como o mais importante do apóstolos justamente por causa da sua melhor formação. A própria administração da igreja exige do pastor conhecimentos básicos de contabilidade, legislação, informática, etc. 

Às vezes, em reuniões de obreiros, gasta-se um tempo precioso com frivolidades. São ótimas oportunidades para a realização de palestras instrutivas, mas infelizmente, não são aproveitadas.

CONCLUSÃO:

A situação, acima exposta, deixa claro que quando o pastor-presidente negligencia a sua obrigação de garantir a formação e designação de pastores excelentes, quem sofre é o membro comum. O trabalho constante do pastor-presidente de proporcionar aperfeiçoamento aos seus pastores e de monitorar suas atividades, certamente reduziria em muito os conflitos que surgem nas congregações.

Vive-se, atualmente, uma situação há muito profetizada pelo filósofo cristão dinamarquês Kierkegaard, o qual, em sua época, lamentou sobre a forma pela qual a religião cristã de seu país violentava o indivíduo, transformando-o em um ser despersonalizado, na grande massa disforme de seres humanos, impedindo-o de reconhecer o valor da sua própria existência, como criatura singular. É exatamente isso o que muitas igrejas estão fazendo com muitos filhos de Deus, os quais, por incrível que pareça, sentem-se, muitas vezes, solitários dentro da Casa do Senhor, abandonados por aqueles há muitos dominados por um egoísmo perverso e que estão cegos para  as desgraças alheias. 

As pessoas atualmente estão mais carentes do que nunca. Elas não querem ser apenas um número; elas querem ser um SER. Isso tudo foi causado pelo crescimento da igreja, mas ainda há tempo de reverter essa situação e adotar uma política que prime pela valorização da boa relação entre o pastor e seus membros. O pastor deve ser preparado para o membro e o membro para o pastor. O resultado, certamente, seria a valorização do pastor pelo membro e também, o reconhecimento pelo pastor, de que o membro não é apenas um estatística, mas alguém que merece todo o seu carinho e atenção.

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